16 de setembro de 2014

Sopa de Letrinhas: Uma criança de sorte

Eu sou aficcionada por livros de guerra (acho que já comentei isso com vocês), tanto que tenho vários livros que tratam principalmente das grandes guerras mundiais e em especial sobre a segunda guerra.

E minha última leitura foi de um livro ligado ao nazismo: "Uma Criança de Sorte - Memórias de Um Sobrevivente de Auschwitz". Trata-se do relato de Thomas Buergenthal acerca da sua infância em plena Guerra, sobre a vida e sobrevivência em um gueto e sobre a ida dele e sua família para Auschwitz. É obviamente um livro muito triste, mas muito rico por ser tão pessoal, tão particular. Ele não debate sobre a guerra, não trata-se de um relato histórico, mas explora as particularidades de uma família.

Como o autor levou muitos anos pra escrever o livro (décadas na verdade), o início do livro é bastante pobre pois as lembranças dele acerca da sua tenra infância já não são muito claras. Fica muito evidente o quanto os acontecimentos são entrecortados, mais pontuais, com pouca contextualização, sem tanta emoção e principalmente em alguns momentos até mesmo um pouco fantasiosos. É esperado que seja difícil relatos mais precisos, visto que ele não tinha 6 anos quando passou a morar no gueto e presenciar mais de perto as cenas da guerra. Aos 10 anos ele vai com a família para Auschwitz mas logo é separado dos pais.

É inimaginável pensar numa criança de 10 anos, abandonada a própria sorte, sem uma referência familiar por perto para auxilia-lo no enfrentamento do horror de um campo de concentração. E ele se auto refere no livro como uma criança de sorte, justamente porque é inacreditável que ele tenha passado por tanta coisa e ainda assim ter conseguido sobreviver, sozinho. Um lugar onde não havia vez para pessoas que não pudessem produzir para os alemães. E mesmo no final da guerra, quando Auschwitz começou a ser evacuada, e mesmo os que podiam produzir passaram a ser mortos em série também, é realmente uma avalanche de acontecimentos e muita sorte que faz com que o pequeno Thomas passe por tudo isso, enfrente depois a marcha para fora do Campo, passando fome e frio, desnutrido, cansado, e ainda assim sobreviva.
Mas tirado aquele início do livro, onde Thomas ainda é muito pequeno, a história progride cada vez mais emocionante e com mais detalhes ricos e o mais importante, mais relevantes. Os últimos capítulos pra mim são os melhores, lindos, embora ainda assim tristes.

Não há nada de novo pra aprender sobre a guerra, sobre o nazismo, sobre o holocausto, neste livro. Apenas o entendimento de que a história de Thomas é só dele mas ainda assim merece ser conhecida. E então você toma a consciência de quantas histórias, inúmeras, incontáveis, existem por aí. Relatos tão pessoais, sobre o sofrimento pessoal, familiar, sobre as sensações. Nada genérico. Histórias únicas. Embora todos enfrentassem os mesmos problemas, cada uma dessas pessoas mereceria ser ouvida, ou lida.

Recomendo a leitura. 






 O livro foi traduzido em vários idiomas.


Qual livro ? Uma criança de sorte - Memórias de Um Sobrevivente de Auschwitz
Quem escreveu ? Thomas Buergenthal
Do que se trata ? Autobiográfico, Thomas relata sua experiência no holocausto, contando desde um pouco da sua infância no início da guerra, como principalmente sobre o período em que a guerra avança e eles passam a viver num gueto e posteriormente em Auschwitz, bem como a aventura que foi sair de lá. Thomas passou pelo inferno e sobreviveu graças a diversos acontecimentos que se deram ao acaso, e por isso se intitula uma criança de sorte.
E a linguagem ? O texto é todo narrativo, bem fluido e acessível. Os capítulos são relativamente curtos. Conta com algumas poucas fotos (afinal, a maior parte se perdeu na guerra).
Interessante, inovador ? A história da guerra nós já conhecemos. Esse livro relata a passagem pessoal de um garoto e sua família através dela. Não há grandes aventuras, não há salvamentos milagrosos, não há heroísmo que possa virar um filme hollywoodiano. Trata-se simplesmente do horror, fome, medo,  frio e todas as privações pelas quais uma criança passou neste período. E é isso que faz dele um livro tão especial. Inicialmente é um pouco decepcionante pois os relatos iniciais são fracos, um pouco desconexos e particularmente achei eles com pouca relevância em alguns momentos. Houve ainda momentos no início que fiquei um pouco incrédula com uma outra passagem. Mas temos que lembrar que são as lembranças de um homem que escreve sobre sua infância décadas depois. As memórias já não são frescas e o próprio olhar da criança na época é diferente do que seria nosso olhar para alguns acontecimentos. Mas com o avançar do livro, a leitura começa a ficar bem mais interessante, com relatos mais coesos e relevantes.
Recomenda ?  Não é leitura imprescindível mas é interessante. Não apenas como passatempo mas para reflexão. Merece a leitura. 

E era isso gente. Aguardem o próximo, pois já iniciei minha nova leitura e o próximo Sopa de Letrinhas terá novamente As Crônicas de Gelo e Fogo. Estou lendo o livro 2: A Fúria dos Reis. Aguardem !

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